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Resenha (99) - O Circo Mecânico Tresaulti



Sinopse:
Respeitável público, o Circo voltou!
Num mundo pós-apocalíptico, onde as pessoas não tem mais acesso à tecnologias de ponta, uma caravana circense leva esperança por onde passa. Os artistas são sobreviventes de guerra, que tiveram seus corpos mutilados reconstruídos com complexas estruturas mecânicas.

O circo chegou! O Circo Mecânico Tresaulti, porém, não é um espetáculo comum. Seus artistas são por si só atrações, mesmo se não possuíssem nenhuma habilidade iriam ainda assim chamar a atenção do público. Isso porque eles são mais do que humanos, são meio máquina meio homens, presos no limiar entre a vida e a morte por poderes que nenhum deles saberia explicar.

Essa premissa sinistra é completada pela fantástica habilidade da autora em descrever os momentos mágicos do circo, como salto para a morte da acrobata que é salva no último instante pelo seu parceiro que a agarra no ar enquanto a plateia prende a respiração. Ou a piada do palhaço, que por mais que todos conheçam ou já preveem o que vai acontecer, ainda sim a gargalhada é espontânea e inevitável após este terminar o seu número.

Genevieve Valentine escreveu uma história que fala sobre um circo itinerante que vaga por um mundo apocalíptico arrecadando poucas moedas ou aquilo que o visitante puder pagar em troca de alguns poucos momentos de alegria e diversão. É uma história do gênero Steam-punk, mas que no decorrer da leitura percebemos traços claros de um pouco de fantasia, o que deixou a história ainda mais deliciosa de ler. Costumo marcar frases interessantes que acho no decorrer da leitura, mas estava tudo tão bom que depois da página 60 esqueci de marcar qualquer coisa que fosse, só queria saber o final dessa história tão fantástica.

Tenho de comentar também, apesar de falar aqui sempre a mesma coisa, sobre o acabamento perfeito e caprichoso da Dark Side na elaboração dessa versão nacional. Repleto de gravuras que existem somente na versão brasileira, o livro tem uma das capas mais lindas que já vi, com finalização impecável e ainda por cima vem um pequeno brinde junto, uma recordação que compreendemos após terminar a leitura. Não sou fã do terror, carro chefe da casa, mas livros como esse me fazem ter vontade de ler mais do tema apenas para poder colecionar as obras da editora.

A história é narrada em primeira pessoa por George, o garoto dos ingressos no começo e um dos protagonistas do livro no final. Apesar de George contar a maior parte da história, em alguns momentos a narrativa apenas acontece, complementando fatos que George não poderia saber e aumentando a quantidade de detalhes que recebemos dos personagens.

E são os personagens que permeiam grande parte do livro. Os principais são apresentados sempre contando a história de como foram aceitos no circo. Entremeando capítulos entre as andanças da trupe, vamos conhecendo Elena, Bird, Stenos, as acrobatas, os irmãos, Big George e a mais importante de todas, Boss, a líder e de certa maneira a que dá vida a todos eles.

A história é meio parada por grande parte do livro, mas isso não importa. A escrita de Genevieve é tão envolvente, poética e diferente do que estamos acostumados que ficamos presos a narrativa mesmo esta não possuindo grande passagens de ação, pelo menos não até o clímax final.
É em estado de fascinação pelo mundo e pelos personagens que vamos acompanhando o circo em sua luta pela sobrevivência. Aprendendo devagar um pouco mais sobre cada um e sua importância e também sobre o que aconteceu com o mundo e como ele continua existindo hoje. O clima da trama muda quando um governante poderoso, algo raro nos dias atuais, olha para a trupe com outros olhos, imaginando o que pode conseguir se tivesse em suas linhas de batalha as mesmas habilidades que eles possuem. Seu interesse pode acabar com o circo e todos serão obrigados a provar mais uma vez que são capazes de sobreviver em um mundo onde sobrevivência é um luxo de poucos.


A trama e a escrita da autora são ótimas. Adorei o fato dela não se prender a tecnologias de vapor e invenções malucas, além de inserir um pouco de sobrenatural na história. Geralmente autores steampunk focam muito nesses temas o que acaba deixando tudo mais do mesmo, e este livro está longe de ser algo mais do mesmo.

Uma das personagens mais legais, pelo menos para mim, morre no decorrer do livro e é óbvio que não gostei disso. rs
As trocas entre passado e presente também atrapalharam um pouco. Isso porque a narrativa é muito igual e demoramos a perceber que seriam narradores diferentes.


Trechinhos:
“Ela ergue os braços e a plateia ruidosamente se acalma.
“- Senhoras e senhores, ela chama.”
Sua voz enche o ar. Parece que a tenda cresce para acolher as palavras, o círculo de bancos se afasta mais e mais, o metálico Panadrome vira uma orquestra, a luz suaviza e se enrola em torno das sombras até que, de uma só vez, você esta empoleirado em um minúsculo assento de madeira sobre um grande e glorioso palco.
Os braços da mulher ainda estão bem abertos, você percebe que ela não parou de falar, que sua voz sozinha mudou o ar, e quando ela continua, “- Bem-vindos ao Circo Mecânico Tresaulti!”, você aplaude como se sua vida dependesse disso, sem saber porquê.”

“Isso é o que acontece quando se dá um passo: você se aproxima daquilo que quer.”

“Bird é a única ali que fica melhor maquiada. Quando está de rosto limpo, só chama atenção para onde foi remendada. É melhor quando está pintada, e dá para assimilar seu rosto como algo feito de propósito – não sei por que Boss fez a chapa de ferro do rosto. Só faz lembrar os outros do que aconteceu a ela, e Bird não precisa de ajuda para ser excluída.”

“Se uma pessoa cai no meio de um número, - disse Boss, - Você aponta para ela como se fizesse parte dele e o termina. Ninguém quer ver você fracassar. Qualquer um pode fracassar. Eles pagam dinheiro para nos ver fazer coisas que eles não conseguem.”

Genevieve Valentine
Conclusão:
Eu gosto do gênero, então ao contrário da grande maioria, não comprei o livro somente pela capa, apesar de ela ter influenciado para que comprasse este livro antes de outros. Não me arrependo! O livro foi além do que eu esperava e a autora me surpreendeu muito por este livro se tratar de sua estreia. O Circo Mecânico é uma obra fantástica que, com todo o carinho de edição da DarkSide a coloca em um patamar um pouco acima do que estamos acostumados!

Autor: Genevieve Valentine
Livro: O Circo Mecânico Tresaulti (Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti)
Editora: Dark Side Books (Prime Books)
Ano: 2016
Páginas: 312

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