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Lançamentos de Fevereiro da Biblioteca Azul

Ana de Amsterdam - Ana Cássia Rebelo
Ana Cássia Rebelo é uma mulher com suas horas bastante ocupadas, dividindo seu tempo entre o emprego como advogada numa repartição, os três filhos ainda pequenos e um casamento já desgastado. Nessa rotina, que oscila sempre entre o tédio da segurança e o desejo do inesperado, Ana encontra lugar para escrever. E foi assim que surgiu, em 2006, o blog Ana de Amsterdam, em que ela ia registrando esse movimento pendular entre pequenas vitórias e grandes angústias. Das postagens do blog, imensamente literárias apesar de intrinsecamente efêmeras, o jornalista e crítico português João Pedro Jorge pôde organizar uma obra que funciona como diário íntimo, em que os pequenos textos são datados, e vão desenhando uma personagem rica, um tanto misteriosa, capaz de confundir o leitor entre uma doçura maternal e uma rascante agressividade.
Com um histórico depressivo, muito inteligente e sensível, o que vemos na sucessão dos dias dessa narrativa fragmentada é o retrato subjetivo da chamada mulher moderna, esse ser quase indefinível. Ana sente desejo e nega-o, ama os filhos, mas se sente sobrecarregada, se apega à vida por detalhes, e encontra o sentido perdido no cotidiano doloroso em um pôr do sol bonito numa cidade indiana. Com parte da família em Goa, essa terra misteriosa em que a Índia fala a língua portuguesa, Ana desenha no país distante a possibilidade de descobertas – como antigos navegadores buscavam especiarias. A mesma busca se dá por uma sexualidade crua, em que não há tabus, e a frigidez, a masturbação, o desejo doente são temas tratados corriqueiramente, conceitualmente e na linguagem – limpa, crua, direta.
O resultado desse conjunto coeso de pequenas narrativas é um livro escrito em uma prosa brilhante, que se a filia a nomes como Sylvia Plath e Virginia Woolf, no que todas têm de prosadoras poderosas e marcantes – também finca o pé em certa tradição nacional portuguesa, e o conjunto de fragmentos do livro lembra o Livro do desassossego, de seu conterrâneo mais ilustre.
Que o leitor se embrenhe nessa prosa primorosa. Que descubra a literatura contemporânea portuguesa, e que, atentamente, descubra o poder da narrativa feminina.

A Situação Humana - Aldous Huxley
O eterno esforço do homem, tal qual um trabalho hercúleo, em dar uma ordem e constante significação ao mundo que habita. Com esta frase poderíamos sintetizar o pensamento de Aldous Huxley, talvez um dos autores mais festejados da Biblioteca Azul, da Globo Livros, nestas palestras proferidas no ano de 1959, na Universidade de Santa Barbara, nos Estados Unidos.
E é nesta relação com o mundo que reside a tentativa de conciliação com ele. Dar ordem, encaixar, entender, ajustar os ponteiros. Fundamentar e balizar, em termos filosóficos e sociais, o espírito do tempo a novas gerações, trazer luz aos problemas de uma época e examinar as potencialidades do mundo moderno, tal como ele é ou tal como ele exige que seja.
A edição da Biblioteca Azul, revista e com novo projeto gráfico, resgata a obra que estava fora de catálogo há mais de 2 décadas. Os tópicos tratados por Huxley variam da natureza humana, e sua situação, até os primórdios da linguagem, onde tudo começou e por que somos o que somos e nos comunicamos de um modo bastante parecido até hoje. Passa pelo discurso e pela crítica religiosa, toca na cultura oriental, ao qual o autor então já se mostrava envolvido, e chega a debates que ainda fervem passado mais de meio século: a opressão dos nacionalismos, a genética como frágil ponto de partida, a deterioração do planeta, entre diversos tópicos que se tocam e se repelem a cada contato.
A tradução por conta da escritora Lya Luft mantém o tom intelectual do original e ainda equilibra bem o ritmo da fala, já que o conteúdo veio exclusivamente das palestras. Acessível e uma fonte inesgotável de referências das mais diversas, este A situação humana continua sendo um trabalho filosófico de primeiro porte: os insights do autor para o futuro nos transportam no tempo e nos fazem refletir sobre o que ainda queremos, o que ainda precisamos, o que ainda falta.
Trata-se de leitura obrigatória tanto para o entusiasta de Huxley que ainda não conhece a obra como para quem já teve a oportunidade de ler no passado e busca uma avaliação espiritual a partir do referente que, mesmo invisível, é o mais confiável: o tempo. Em paralelo com Admirável novo mundo, Contos escolhidos, Contraponto e Sem olhos em Gaza, todos recuperados pela Biblioteca Azul, esta edição forma um mosaico complexo e cheio de luz de quem foi um dos autores mais célebres do modernismo inglês.

Ler é Mais

Lorem ipsun