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Resenha (83) - Sonho Febril


Sinopse:
Uma reinvenção original e fascinante das histórias de vampiros pelas mãos do mestre da fantasia moderna George R.R. Martin. Quando o falido capitão Abner Marsh recebe uma oferta de sociedade de um rico e sinistro aristocrata chamado Joshua York, ele até chega a desconfiar que algo está errado. Mas nada que a possibilidade de receber milhares de dólares em ouro e construir o barco dos seus sonhos não possa fazê-lo mudar de ideia. Assim surge o Sonho do Fevre, o melhor e mais potente barco de todo o Mississipi. Uma embarcação magnífica que, ao navegar pelo rio, vai deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias. Movido pela força do vapor, o Sonho do capitão pode se transformar no maior pesadelo da humanidade.

Joshua York.
Acredito que minha vontade de ler este livro nasceu da mesma motivação que uns 80% das pessoas que o leram. Essa motivação é George R. R. Martin, um autor que conquistou milhões de fãs no mundo todo com As Crônicas de Gelo e Fogo ou Guerra dos Tronos e que transforma em ouro praticamente tudo o que ele toca.

Quando vi que a Leya ia lançar o tal do livro de vampiros escrito pelo autor pensei, ‘Uau!, com certeza tenho que ler esse livro, imagina o que um gênio como ele podia fazer com vampiros!’. E a resposta é, ‘nada demais!’.

Se você vai ler o livro esperando outra obra prima de Martin então nem se de ao trabalho de começar. Não dá para reconhecer o ‘traço’ do autor. Os personagens profundos e com personalidades complexas e bem elaboradas não estão lá, assim como não estão lá os cenários interessantes nem as intrigas que transformam a trama em um texto muito bem amarrado e elaborado. A única coisa reconhecível é o prazer, que agora tenho certeza é algo que ele realmente acha legal ou importante, que o autor tem em fazer você gostar de um personagem para matá-lo sem nenhum motivo logo a seguir, de forma a nem mesmo contribuir para a trama, mata apenas porque o personagem ficou interessante. Em uma saga podemos perdoar afinal outros virão e a história segue em frente, mas em um volume único isso é frustrante e totalmente brochante.

Damon Julian, rival de York.
O final então foi digno de um amador. O livro não é ruim, apenas ficou bem longe das expectativas criadas por ter sido escrito por quem foi, mas o final, esse sim odiei. Achei fraco, pouco trabalhado e improvisado. Tem tantas falhas dentro do universo criado pelo autor que fica difícil enumerar, sem contar a tentativa de dramatizar e criar um clímax depois de ter terminado a história. Sim! É como se o livro tivesse dois finais. Acaba a história e o autor resolve ir lá e escrever mais um pouquinho, mas tem preguiça de mudar os acontecimentos então só junta tudo no novo texto e vai assim mesmo.

Tirando o final e a expectativa de uma grande obra que não foi atendida, se conseguir deixar isso de lado, o livro é legal. É ambientado nas antigas viagens fluviais do rio Mississipi nos Estados Unidos, algo bem original para dar corpo à história e tem personagens fortes e interessantes. Há passagens que temos de nos esforçar para ler, mas no geral a leitura flui de forma natural e ficamos interessados na trama até o final. Acho que ao menos podemos garantir como ponto positivo que estes vampiros não brilham no sol!

Na história vamos acompanhar o capitão Marsh, dono de uma pequena companhia de transportes fluviais que recebe uma inusitada proposta de sociedade de um estranho e sinistro ricaço que nunca havia ouvido falar antes.

A proposta inclui a construção do maior, mais belo, mais luxuoso e mais veloz barco de transportes já construído em solo americano, com o objetivo de navegar o rio Mississipi de ponta a ponta. Não há limites de gastos nesse investimento e o capitão é livre para fazer o que quiser e como quiser nos negócios, afinal seu novo sócio só quer aprender como funcionam os barcos e navegar no novo vapor sem ser incomodado.

Aliás, isso é a regra primordial do acordo. O novo sócio é além de sinistro, dono de modos e gostos peculiares. Pequenas manias que o tornam muito diferente de qualquer outra pessoa e exige que nunca seja questionado sobre isso. Também exige que o capitão aceite quaisquer amigos que ele trouxer a bordo, todos adeptos das mesmas praticas estranhas, como o hábito de somente sair a noite e de curtir uma bebida escura de gosto intragável.

O Fevre Dream, extraído da HQ baseada no livro.
O capitão Abner Marsh aceita a sociedade com Joshua York e ambos embarcam juntos na viagem inaugural. Tudo corre bem, até que as estranhas manias de York começam a chamar a atenção do capitão, além é claro dos amigos sinistros que ele tem trazido a bordo do vapor. Quanto mais passam os dias, mais perturbado fica Abner Marsh, até que não se aguenta e acaba por tentar descobrir qual é o verdadeiro grande mistério por trás de tudo isso. O que ele irá descobrir fará com que questione a própria sanidade, enquanto tenta sem muito sucesso ficar a margem de um conflito entre seres lendário, imortais, perigosos e letais. O perigo ronda o vapor enquanto ele se aproxima, descendo lentamente o rio, de um misterioso e perigoso destino final. O que irá resultar disso está além de qualquer coisa que o capitão Marsh poderia prever e sobreviver acaba se tornando uma tarefa absurdamente difícil de completar.


Gostei da ambientação do livro. As viagens de rio foram muito populares nos Estados Unidos através dos barcos a vapor, mas eu sabia muito pouco sobre isso. Também gostei dos dois personagens principais, o capitão Marsh e o Vampiro York, bem construídos e carismáticos como são geralmente os personagens de Martin.

Como já devem ter percebido eu odiei o final. Não fez muito sentido e parece ter sido terminado as pressas. A irritante mania de matar personagens queridos também é um ponto baixo do livro. Também faltou um aprofundamento maior da personalidade dos personagens, que são vários, mas somente os dois principais são bem trabalhados.


Trechinhos:
“Deu uma batidinha na mesa co sua bengala. A toalha abafoi o som, tornando-o um aviso delicado.  – O senhor é Joshua York? – perguntou. York levantou a cabeça, e os dois olhares se cruzaram. Até cumprir o resto de seus dias, Abner Marsh relembraria aquele momento, aquela primeira vez em que olhou dentro dos olhos de Joshua York.”

“Marsh aos poucos foi se acostumando com aquela maneira de York e seus companheiros, de viverem à noite e dormirem de dia. Conhecia outras pessoas que faziam isso. E, da única vez que mencionou o assunto a York, Joshua apenas sorriu e declamou de novo para Marsh aquele poema que falava do ‘áureo dia’.”

“Sour Billy afastou seu prato e foi atender à convocação. A sala precisava muito de uma limpeza, notou ao passar por ali. Adrienne, Kurt e Armand estavam tomando um vinho em meio ao sombrio silêncio dali, no meio dos corpos – ou do que restava deles –, estendidos a poucos palmos do grupo.”

“Ele não vai gostar – retrucou ela. – Joshua, o risco... – Mesmo assim – disse Joshua. – Valerie, conte a ele. Fez-se um silêncio de chumbo por um momento. Então, baixinho, Valerie disse: - O gado. É como a gente chama vocês, capitão. O gado.”

“Eu matei inúmeras vezes, fiz muitas coisas terríveis, mas não sou mau. Não escolhi ser do jeito que sou. Quando não se tem escolha, não pode haver bem nem mal. Meu povo nunca teve escolha.”

George R. R. Martin
Conclusão:
O livro não chega a ser ruim. Viajar pelo rio cruzando o Mississipi de quase dois séculos atrás foi muito interessante. Os vampiros são como deveriam ser, enigmáticos, tomam sangue e são perigosos. Mas nem de longe antedeu minhas expectativas por se tratar de um livro de George R. R. Martin. Mesmo analisando o livro como um todo, aprendemos mais sobre barcos a vapor do que sobre os vampiros da história. O livro não é ruim, mas tampouco dá para considerar como bom. Há obras muito mais interessantes sobre vampiros que podemos encontrar por ai.

Autor: George R. R. Martin
http://www.georgerrmartin.com/
Livro: Sonho Febril (Fevre Dream)
Editora: Leya (Poseidon Press)
http://geral.leya.com.br/pt/
http://www.poseidonbooks.com/
Ano: 2015 (1982)
Páginas: 352 (350)
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