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Resenha (79) - Deuses de Dois Mundos - O Livro do Silêncio


Sinopse:
Na África ancestral, Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, não entende por que seus instrumentos se calaram. Nos dias atuais, um jovem jornalista se aventura pelas ruas de São Paulo, tentando fugir de uma missão que não deveria ser sua. No primeiro livro da série Deuses de dois mundos, Ogum, Xangô, Oxóssi e Oxum se unem a gente do nosso tempo para resgatar os 16 príncipes do destino, numa narrativa que preserva toda a sensualidade e violência original dos mitos africanos dos orixás.

Finalmente tive o tempo e a tranquilidade para dar a devida atenção a este livro fantástico, ou assim haviam me dito, escrito pelo escritor e publicitário e também empresário PJ Pereira. Conheci o autor em um de nossos encontros do BlogsDeLetras, desta vez promovido pelo pessoal sensacional da Livros de Safra e na ocasião, fomos presenteados pela trilogia completa, composta de O Livro do Silêncio, O Livro da Traição e O Livro da Morte.

Recentemente terminei o primeiro livro e posso afirmar com certeza que foi a melhor ficção de fantasia escrita por um brasileiro que eu já li.  A leitura é super dinâmica, a escrita é envolvente e original e o livro possui um temática e uma trama diferente de tudo que vocês podem encontrar por ai. Podem até dizer que digo isso por se tratar de um livro vindo de uma parceria, porém a verdade é que realmente adorei esse primeiro livro, foi uma experiência indescritível e que para mim, coloca o PJ como um dos melhores autores do gênero por aqui. Não é a toa que vem fazendo sucesso lá fora e já tem negociado a publicação do livro em outras línguas e diversos outros países. Tem tudo para se tornar uma força da nossa literatura, mais um nome de peso para ajudar a colocar o Brasil como um país de grandes escritores atuais e não somente do passado.

É claro que nem tudo foi perfeito. Elogio o livro agora, mas no começo fiquei muito travado na leitura o que associado a problemas pessoais, me obrigou a deixar o livro de lado, coisa que quase nunca acontece. Demorei a me acostumar com os nomes, afinal é uma mitologia da qual não estou habituado e não conheço os personagens. Além disso, o livro é dividido em dois tempos diferentes, com duas histórias diferentes. De um lado acompanhamos o jovem e promissor jornalista Newton que é envolvido no mundo dos orixás sem que perceba direito o que estava acontecendo. Do outro lado temos uma história ancestral, onde um grupo de guerreiros embarcam em uma jornada para salvar os Odus, os príncipes do destino que falam com os humanos através do búzios ou do opelê. Essa divisão, junto com a confusão de coisas que eu não conhecia me deixou perdido no começo, mas só no começo, depois que peguei o fio e o ritmo foi só relaxar e se deleitar com uma história fantástica  e apaixonante.

A trama começa com Newton narrando suas aventuras de um passado recente para um interlocutor desconhecido que encontra na internet. A narrativa se da através de emails onde não temos as respostas do interlocutor, somente de Newton que conta todos os fatos que o levaram a se envolver com os orixás e sua busca por respostas desde então.

Em paralelo, acompanhamos Orunmilá, um sacerdote da religião antiga da cultura Iorubá, que recebe a incumbência de reunir 7 guerreiros para resgatar os príncipes Odus que foram sequestrados pelas poderosas Lá Mi Oxorongá. A demanda não é das mais fáceis, ainda mais sem poder jogar seus búzios e se comunicar com o mundo espiritual, afinal aqueles que poderiam lhe ajudar são justamente os que estão necessitando de resgate. E esse é o gancho para a história do passado e do presente se juntarem, porém não vou estender aqui para não dar spoiler desnecessário.

O livro se passa com capítulos intercaldos entre uma história e outra. Acompanhamos o dia a dia de New em seu trabalho como jornalista e o descobrimento da religião que invade sua vida sem ser convidada e acompanhamos também a saga dos nobres guerreiros do passado em sua jornada de encontro ao perigo. Confesso que esperava um pouco mais de ação, umas pancadarias entre deuses ou algo do tipo, mas a cadencia entre coisas do cotidiano, romance e violência acabou se mostrando na medida certa para a trama proposta.

É um primeiro livro em uma trilogia, então temos muitas pontas soltas e diversas coisas que ficam sem explicação, mas que acredito que irão se encaixar no decorrer da história e o livro foi bom o suficiente para me fazer voltar a acreditar na fantasia brasileira. Não me sentia com tanta expectativa desde o primeiro volume de Dragões de Éter do Draccon, e os estilos nem sequer são parecidos.


A originalidade e a construção da história, principalmente na parte dos guerreiros foi o que mais me agradou. Foi algo totalmente diferente do que estou acostumado e após passar a estranheza inicial, me senti totalmente a vontade com os novos Deuses e seres poderosos que ainda não conhecia. Todos esses personagens são fantásticos, cada um a sua maneira e após ver o booktrailer ficou fácil criar uma imagem mental de cada um.

Agora falando em personagens, O protagonista é o ponto fraco do livro. Vi muitas criticas falando sobre machismo, egocentrismo e homofobia, porém tudo isso é uma grande besteira sobre pessoas que tendem a julgar demais, cada uma por seus próprios motivos, afinal acusar um personagem de machismo ou homofobia é meio sem sentido, afinal é um personagem e ele tem de ser como o autor entende que deve ser, como imaginou na sua cabeça. O problema do Newton é que ele é fraco. Se queixa demais e suas narrativas são sempre meio enroladas, sem ir direto ao ponto e ele é extremamente mimado, se aborrece se as coisas não são como quer. Mas vamos acompanhar a evolução dele no livro dois antes de exigir o morte do pobre coitado.


Trechinhos:
“Há tempos as Iá Mi tentavam impor suas vontades e tomar o poder dos orixás. Embora fossem muito poderosas, nunca haviam conseguido executar um plano capaz de colocá-las realmente a frente do mundo. Mas, desta vez, pareciam ter tomado o controle do mundo dos vivos, que os Iorumbás chamavam de Aiê.”

“Quando ouço essa conversa cheia de culpas, sempre me pergunto: como pode ser errado se permitir algum prazer, se isso não significa necessariamente que alguma outra pessoa será prejudicada?”

“- Eu nunca errei um alvo. Pois essa flecha acertará o coração do maldito ladrão que roubou a primeira codorna que cacei com Orumnmilá. Adeus. Espero revê-los um dia.”

“- O que pensa que faz? Que pode me seduzir depois me tratar como qualquer um que se derrete diante de seus encantos? Como se fosse um fraco? Eu sou Ogum, um guerreiro forjado pelo ferro. E não vou admitir que uma mulher faça pouco de mim. Já cortei muitas cabeças por menos!”

“Ogum havia se esquecido da lição que ele mesmo ensinara ao irmão: ‘Silencio é a melhor arma do caçador. E surpresa, a melhor armadilha para a presa.’”

“Quando o último grão de poeira cedeu, uma mulher olhava-o com respeito. Ela era bonita. Não trazia joias nem enfeites. Apenas o cabelo delicadamente trançado jogado às costas. Empunhava escudo e lança como uma guerreira, mas seu olhar era, acima de tudo, maternal.”

PJ Pereira
Conclusão:
Já disse ai em cima que achei o livro excelente e que valeu a pena a leitura. Tem seus defeitos, mas que podem muito bem fazer parte do contexto ou sumir nos próximos livros(o new por exemplo), então não tem muito porque comentar agora. Só posso dizer que atendeu as expectativas, me aproximou de nossa cultura e me apresentou um pouquinho mais sobre uma religião que sei muito pouco ou quase nada. Uma fantasia que não perde em nada para as gringas que infestam nossas livrarias.

Autor: PJ Pereira
Livro: O Livro do Silêncio
Editora: Da Boa Prosa (Livros de Safra)
Ano: 2014
Páginas: 261
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