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Não Se Perca no Labirinto de Patrick Modiano

Por Pedro Vasquez no Blog da Rocco.


Parisiense, Jean Patrick Modiano nasceu em uma maternidade de Boulogne-Billancourt (pequena comuna da região administrativa de Île-de-France, a mesma à qual pertence Paris) em 30 de julho de 1945, sendo filho de Luisa Colpeyn e Albert Rodolphe Modiano. Sua mãe era belga, da região flamenga, correspondente à região de Flandres (a parte norte do país, em oposição à Valônia, situada ao sul). Ao contrário da informação errônea de que seu pai seria “um judeu italiano”, ele era nascido em Paris, embora fosse efetivamente de ascendência judaica e toscana. Contudo, não era praticante, sempre escondeu suas origens (no tempo da Guerra por razões óbvias), matriculou ambos os filhos em internatos católicos, mandando, inclusive, batizá-los. Certamente não por excesso de fé, já que – mantendo o descaso pelas crianças que lhe era característico –nem mesmo compareceu ao batizado, celebrado no período de dois anos (1949-1950) que eles passaram em um colégio interno de Biarritz.

Patrick e Rudy (dois anos mais novo) regressam a Paris no ano seguinte, mas não ao convívio familiar, pois seus pais ou os mantinham em colégios internos ou os confiavam aos cuidados de amigos ou de guardadores, de tal forma que o futuro escritor sente-se então como um animal que passa de mão em mão segundo a conveniência dos donos. Sentimento que ele resume na terrível frase extraída de seu relato confessional, Un pedigree: “Sou um cachorro que finge ter um pedigree”. Em janeiro de 1957, Rudy morre de leucemia, aos dez anos de idade. O choque da morte de Rudy foi determinante para o irmão, tanto para o futuro imediato quanto para sua trajetória como escritor. Isso porque Modiano se viu completamente sozinho no mundo, já que a mãe o ignorava completamente e seu pai fazia tudo para afastá-lo, mantendo-o sempre em colégios internos e tentando inscrevê-lo à revelia no serviço militar. Após esse episódio, assim que atingiu a maioridade legal em 1966, Patrick Modiano rompeu definitivamente relações com o pai, que veio a falecer na Suíça, em 1977, em “circunstâncias não esclarecidas”, segundo o romancista e ensaísta Pierre Assouline. O que não é de surpreender, quando se sabe que Albert Modiano vivia sempre envolvido em negócios escusos ou rocambolescos, de tal forma que o próprio filho suspeitava de seu envolvimento com os colaboracionistas, utilizando-o como inspiração para alguns dos personagens de moral dúbia de seus livros.

A estreia literária de Patrick Modiano se deu em 1968, com Place de l’Étoile, em um momento em que ninguém na França falava a respeito do período da Ocupação. Apesar de causar comoção e desconforto, o romance foi contemplado com o prêmio Roger Nimier, pela sua habilidade em tratar temas pesados com leveza, como o Estatuto dos Judeus, as delações ou o episódio das prisões em massa ocorrido no Velódromo de Inverno. Este primeiro prêmio inaugurou assim uma série contínua de premiações que atingiu agora a culminância com o Nobel, depois de ter passado pelo Goncourt (conforme já dito), em 1978, e pelo Prêmio Mundial Cino del Duca, outorgado pelo Instituto de França em 2010.

Modiano considera que só começou a viver a própria vida quando recebeu a notícia da aceitação do primeiro livro pela Gallimard. Significativamente, assim termina seu único livro verdadeiramente autobiográfico, Un pedigree: “Aquela noite eu me senti leve pela primeira vez na vida. A ameaça que pesava sobre mim ao longo de todos aqueles anos, me forçando a viver sempre em estado de alerta, havia se dissipado no ar de Paris. Eu havia conseguido escapar antes que a ponte apodrecida desabasse. Já não era sem tempo.”



As feridas abertas pela Ocupação ainda perturbam a vida política e social francesa até hoje, decorrido mais de meio século, e podem ser comparadas àquelas deixadas no Brasil pelo período da ditadura militar instituída em 1964. Isso porque nosso país também foi dividido por este período de exceção em dois campos opostos: o daqueles favoráveis aos militares e o daqueles que os combateram, inclusive pegando em armas. Entre os dois extremos, em ambos os países, a massa cinzenta e sem nome que se acomodou muito bem à situação, sem grandes preocupações éticas ou morais, desde que pudesse auferir algum tipo de benefício.

O crítico literário Gilles Lapouge comentou: “a infância de Modiano foi tão perturbadora que ainda hoje, 69 anos depois, este homem se debruça sobre o que antecedeu ao seu nascimento como nos debruçamos sobre um precipício infinito, sobre esses anos da Ocupação que ele não vivenciou, mas dos quais é fruto. ‘Muitos amigos que não conheci’, escreveu ele um dia, ‘desapareceram em 1945, ano do meu nascimento’. E também: ‘Tenho a impressão de ser uma planta nascida do estrume da Ocupação.’” De fato não há exagero em afirmar que a infância de Modiano foi infeliz.


Apesar de ausente e indiferente, sua mãe viria a lhe proporcionar sorte ao apresentá-lo a Raymond Queneau, autor do clássico moderno Zazie dans le métro. Queneau acabou se transformando em uma figura paterna para Modiano, que costumava almoçar aos sábados em sua casa, era ajudado por ele nos deveres de matemática, e a ele submeteu os originais de seu primeiro livro, Place de l’Étoile. Foi, inclusive, Queneau, que trabalhava como editor na prestigiosa Gallimard, o responsável pela estreia literária de Modiano. A aceitação imediata de seu livro ocorreu de forma natural e quase que predestinada, pois conforme muito bem lembrou o editor do Magazine Littéraire, Maurice Szafran; “Desde a primeira frase de La Place de l’Étoile, ele trazia dentro de si essa obra que o Nobel veio consagrar. Isso nos causou imenso prazer, apesar do fato de que não precisávamos deste reconhecimento para saber que Modiano era um imenso escritor, refugiado em sua vida de bairro, passando rente aos muros com sua alta silhueta, mas, ainda assim, tão próximo de nós.”

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