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A Praga da Leitura Obrigatória

A praga da leitura obrigatória

Na escola, nos jornais ou na internet, não faltam pessoas para dizer o que devemos ler

Danilo Venticinque na revista Época

Quer convencer alguém a abandonar um hábito prazeroso? Basta transformá-lo em obrigação. Nos esportes, é comum ver amadores talentosos abandonando seus sonhos ao deparar com a rotina árdua necessária para competir profissionalmente. No mundo da cultura ocorre algo semelhante. Conheci aspirantes a críticos de cinema que passaram a detestar filmes após experimentar a rotina de assistir a cinco ou seis estreias desinteressantes semanalmente. Talvez isso explique nossa obsessão por games estúpidos e redes sociais: como ninguém nos obriga a passar horas jogando Candy Crush ou navegando no Facebook, podemos gastar nosso tempo assim por puro prazer. Se fôssemos forçados a isso, provavelmente buscaríamos refúgio noutras atividades, como resolver o cubo mágico, elaborar uma tese de doutorado ou descobrir a cura do câncer. Talvez até lêssemos mais livros, se não houvesse tanta gente tentando transformar a leitura numa obrigação.

O assunto é delicado, sobretudo no que diz respeito às escolas. As leituras obrigatórias têm uma importância pedagógica enorme. Os alunos precisam aprender literatura e interpretação de textos na escola, e ler é sem dúvida a melhor maneira de fazê-lo. Dito isso, não é difícil perceber que obrigar um aluno a ler um livro e fazer uma prova sobre ele é uma péssima maneira de incentivar a leitura. Muitos desistem dos livros após a formatura. Outros até voltam a ler, mas deixam de lado os autores que a escola lhes forçou goela abaixo. É raro ver um adulto lendo Machado de Assis, por exemplo. A ironia refinada de um dos maiores escritores da história do país é desperdiçada em adolescentes que leem resumos de seus livros, decoram nomes de personagens, respondem a perguntas de vestibular e, depois, esquecem-se dele para sempre. O lirismo de Manuel Bandeira torna-se uma chatice insuportável quando somos obrigados a nos comover com ele. Até o humor de Macunaíma perde toda a graça.

Felizmente há jovens que sobrevivem a esse teste e tornam-se leitores. Alguns conseguem enxergar a genialidade desses escritores, apesar da obrigação de ler suas obras. A maioria redescobre as livrarias graças a autores populares. J. K. Rowling, John Green, Paulo Coelho, Thalita Rebouças e dezenas de outros, cujos livros felizmente não entram na lista do vestibular e podem ser lidos apenas por diversão.

Mesmo assim, a leitura obrigatória continua nos assombrando fora das escolas. A obrigação pedagógica muitas vezes dá lugar à obrigação social. Descuide por um instante numa conversa entre leitores e aparecerá alguém para tentar convencê-lo de que determinado livro é absolutamente indispensável e ninguém pode deixar de lê-lo. Uns acham que é inadmissível não ler o best-seller da moda. Outros não aceitam o fato de você não se interessar por um grande clássico da história da literatura. E há situações ainda mais absurdas. Um dia desses fui chamado de ignorante por dizer que não gostaria de ler a biografia não autorizada de Caetano Veloso – um livro que nem existe.

A crítica não está imune a essa postura. Pelo contrário. Volta e meia vejo algum colega jornalista escrever, numa resenha, que esse livro ou aquele outro é “indispensável”. Dispenso a resenha na hora. Procuro outra razão para ler o livro ou outro livro para ler.

Houve um tempo em que eu era cordial quando alguém me dizia que eu tinha a obrigação de ler algo. Eu respondia que iria atrás do livro e o colocaria na minha fila de leituras. Hoje sou mais sincero: “Desculpe, mas se eu dedicar meu tempo a todas as leituras indispensáveis, não sobrará um minuto para os livros que eu quero ler.”

É difícil não se deixar intimidar pela imensidão da literatura. Mesmo se fizermos uma lista dos clássicos indiscutíveis, é improvável que sejamos capazes de ler tudo em apenas uma vida. Nosso único consolo é nos reservar o direito de escolher o que ler, buscar o prazer na leitura e aceitar as inevitáveis lacunas na nossa formação literária. Tenho um amigo de vinte e poucos anos que leu Em busca do tempo perdido mais de uma vez, mas não sabia quem era Conan, o bárbaro. Outro amigo divide seu tempo entre grandes obras da literatura, histórias em quadrinhos e livros sobre zumbis. São dois excelentes leitores, com suas falhas e idiossincrasias. Nenhum tem motivo para se envergonhar.

Num dos trechos mais divertidos de seu livro Paris é uma festa, Ernest Hemingway narra uma conversa com o poeta e crítico literário Ezra Pound sobre literatura russa. Ou melhor: uma tentativa de conversa. Hemingway pergunta a Pound o que ele acha de Dostoiévski. A resposta de Pound, um dos homens mais eruditos de seu tempo, é uma surpresa e um álibi para todos nós. “Para te dizer a verdade, eu nunca li os russos.” Se Pound pode esnobar Dostoiévski, até o mais relapso dos leitores está perdoado. Não existe livro indispensável. Cada um está livre para ler o que quiser.


O Artigo é interessante e traz um assunto comum a quase todos os iniciantes na leitura. Apesar de ler dois ou mais livros por semana nos dias de hoje, lembro que odiava ter que ler para a escola. Não porque não tinha interesse na leitura, sempre adorei ler apesar de na época ler muito mais quadrinhos, mas por causa dos temas dos livros que eu tinha obrigação de ler. Sinceramente não entendo o motivo de autores sem identificação com o público jovem, sem histórias cativantes para esse público e com uma linguagem arcaica e que muitas vezes nem é mais utilizada ser obrigatório.

Se o intuito é ensinar a interpretar texto, aumentar o vocabulário e melhorar a gramática, acredito que qualquer livro seja eficiente nessa missão. Porque não simplesmente fazer com que todos leiam mas com a liberdade de escolher seus próprios temas ou histórias que lhe agradam? A conta é óbvia, incentive a algo prazeroso que provavelmente ele se tornará um hábito. Mas no Brasil ainda queremos criar heróis literários em pessoas que não podem perceber o valor desses autores, o resultado é um desastre que resulta em um país onde menos de 30% da população lê ao menos um livro por semestre.

Ler é Mais

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