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Resenha (80) - Proibido


Sinopse:
Ela é doce, sensível e extremamente sofrida: tem dezesseis anos, mas a maturidade de uma mulher marcada pelas provações e privações da pobreza, o pulso forte e a têmpera de quem cria os irmãos menores como filhos há anos, e só uma pessoa conhece a mágoa e a abnegação que se escondem por trás de seus tristes olhos azuis.
Ele é brilhante, generoso e altamente responsável: tem dezessete anos, mas a fibra e o senso de dever de um pai de família, lutando contra tudo e contra todos para mantê-la unida, e só uma pessoa conhece a grandeza e a força de caráter que se escondem por trás daqueles intensos olhos verdes.
Eles são irmão e irmã.
Com extrema sutileza psicológica e sensibilidade poética, cenas de inesquecível beleza visual e diálogos de porte dramatúrgico, Suzuma tece uma tapeçaria visceralmente humana, fazendo pouco a pouco aflorar dos fios simples do quotidiano um assombroso mito eterno em toda a sua riqueza, mistério e profundidade.

Pela primeira vez me vi obrigado a pesquisar a fundo um assunto antes de fazer uma resenha. Isso porque este livro fala sobre coisas que nunca são faladas e que mexem com sentimentos e situações que no mundo real, são tratadas com desprezo, desconfiança e sujeitas a sanções penais.

O incesto existe desde que existe a raça humana, seja em relações de pais com filhos, seja em relações entre irmãos. Mas se existe um assunto para o que não vai encontrar informações é esse. Ao menos não para os casos onde a relação é consentida, afinal falar de amor é chato, melhor fazer sensacionalismo sobre os crimes familiares, pois isso dá ibope. É sério, pesquisei de todas as formas que podia e não encontrei absolutamente nenhum dado referente ao incesto no Brasil para poder comentar aqui na resenha. Nenhuma estatística, nenhum relato em primeira pessoa, nenhum caso judicial que tenha ganhado exposição, nada! A única coisa que consegui concluir é que a prática é muito mais comum do que se pensa, porém muito pouco comentada mesmo não sendo caracterizado um crime no Brasil. Apesar de que, na sociedade brasileira, seria melhor ser preso do que sofrer o julgo que tal relação iria sofrer em sua comunidade.

Em Star Wars, Luke e Leia se beijam
e tem uma queda antes de saberem
que são irmãos.
De forma muito clara, objetiva, sensível e verdadeira, Tabitha Suzuma nos faz mergulhar na história de um lar destroçado pelo abandono e pelo descaso dos pais. A autora faz questão de deixar claro que, apesar dos problemas familiares, a relação entre os irmãos não ocorre em virtude disso, sendo essa situação somente um estopim. O sentimento maior, o amor, puro e verdadeiro como tem de ser,  já estava lá. Como ele surge e se isso é legal ou não cabe ao leitor descobrir, não teremos um nível de aprofundamento técnico sobre a questão.

Confesso que terminei o livro tentando me situar na situação e tentando respeitar algo que sempre vi como sendo completamente errado. Considero-me uma pessoa muito aberta e nunca havia sido confrontado de tal forma com uma ideia fixa e preconceituosa como ocorreu com esse livro. Percebi que um traficante tinha mais minha simpatia do que um incestuoso e isso me chocou. Somente por isso a autora já tem os meus parabéns, afinal fazer o leitor pensar e se colocar em situações fora de sua zona de conforto deveria ser a missão de todos os autores.

A história fala de uma família de cinco crianças e/ou jovens que são criados pela mãe alcoólatra após o abandono total do pai deles quando ainda eram muito jovens. Acompanhamos por mais da metade do livro o drama dos dois irmãos mais velhos, Lochan e Maya, que fazem o que podem para cuidar dos três irmãos mais jovens, sendo duas crianças pequenas em idade pré-escolar e um pré-adolescente na pior fase possível de rebeldia. A trama se desenrola pela visão de cada um dos mais velhos, em capítulos intercalados entre Lochan e Maya.

É emocionante o carinho e a dedicação com que todos eles se cuidam e a forma como os dois mais velhos se entregam para tentar dar um lar para eles, mesmo que seja um lar destruído e suspenso por um fio bem fininho com as ausências sempre sentidas dos pais que cometeram um duplo abandono, afinal a mãe aos poucos abre mão da criação dos filhos se dedicando ao novo namorado.

Violência geralmente está presente.
Lochan é um verdadeiro prodígio na escola. Sua dificuldade em se comunicar e suas crises de pânico o levaram a se dedicar cada vez mais aos estudos, deixando-o também cada vez mais isolado do mundo e preso a sua casa e sua família. Maya, ao contrário do irmão, não tem dificuldades em fazer amizades ou em levar uma vida social normal, mas se sente tão responsável quanto o irmão mais velho por cuidar da casa e dos irmãos pequenos. Os dois juntos fazem exatamente o papel de pai e mãe, até que esse papel de repente deixa de ser somente uma representação e eles começam a se verem como um casal de verdade, como homem e mulher e não mais como irmãos.


A história é ótima. Achei fantástica a forma como a autora abordou tudo, como se aprofundou nos personagens e em suas motivações e nos problemas familiares que propôs par ao tema. Os questionamentos maduros dos irmãos, sua relação e a forma como ela evolui, sem poupar o leitor com tarjas pretas de censura inútil, abordando a sexualidade e os conflitos juvenis de forma sincera e clara. A construção dos personagens e o desenrolar da trama proposta foram as coisas que mais me agradaram, assim como a realidade para este tipo de romance, muito mais próxima do medo e da desilusão do que de um conto de fadas.

Duas coisas me deixaram desanimado neste livro. A primeira é o personagem Lochan, que como ele mesmo se define, é uma pessoa quebrada. Sofre de diversos distúrbios psicológicos e isso por vezes até muda o foco do tema central do livro. Suas passagens são maçantes e ele tem momentos de total infantilidade ou egoísmo, difíceis de engolir mesmo com toda a situação de sua família.
Outro ponto que me desagradou foi a sugestão de que o relacionamento incestuoso nasce somente em um lar perturbado e destruído. Os protagonistas se perguntam se seu amor não é fruto de suas vidas danificadas e do abandono dos pais, mas a pergunta fica sem resposta. Não sei se era a intenção da autora nós mesmos nos fazermos essa pergunta, mas a respostas, por se tratar de um tema tão complexo e obscuro, vai ser a mesma que é hoje em dia. “Sim! Essa relação ocorre somente por pessoas que possuem distúrbios. É um desvio comportamental.” Eu esperava mais, mais detalhes, mais pesquisa e talvez um casal menos problemático e que fosse capaz de lançar uma nova luz sobre o tema. Nisso acredito que a Tabitha falhou.


Trechinhos:

“Nada mudou. As pessoas ainda são as mesmas – rostos vazios, sorrisos desdenhosos. Olho para além delas quando entro na sala de aula e elas olham para além de mim, através de mim. Estou aqui mas não estou aqui. Os professores me dão presente na chamada mas ninguém me  vê, pois há muito me aperfeiçoei na arte de ser invisível.”

“Maya e Francie estão paradas perto da caixa de correio no fim da rua, falando pelos cotovelos, seus olhos observando a multidão de passantes. Preciso de toda a força de vontade do mundo para me impedir de dar meia-volta, mas a expressão de expectativa no rosto de Maya me força a seguir em frente.”

“De repente a ideia de alguém vê-lo assim, tão perto, tão exposto, me parece insuportável. E se o magoarem, e se lhe derem um fora? Não quero que ele se apaixone por alguma menina – quero que fique aqui, amando a gente. Amando a mim.”

“Mas sei que é ridículo, absurdo demais até pensar nisso. Nós não somos assim. Não somos doentios. Somos apenas um irmão e uma irmã que por acaso também são os melhores amigos um do outro. É assim que sempre foi entre nós dois. Não posso perder isso ou não vou sobreviver”

“E também o mais importante de tudo – sussurro. O canto de sua boca se curva. – E o que é? Ainda sorrindo, pisco depressa. – Nós ainda podemos nos amar. – Engulo em seco para aliviar o aperto na garganta. – Não há leis nem limites para sentimentos. Nós podemos nos amar tanto e tão profundamente quanto quisermos. E ninguém, Maya, ninguém vai poder jamais tirar isso de nós.”

Tabitha Suzuma.
Conclusão:
Depois que passa o estranhamento inicial sobre a relação deles e você começa a se entender com os personagens, o sentimento de empatia vem naturalmente e a história começa a fluir em um ritmo bom e agradável. Foi uma experiência especial ler este livro, aprender sobre um mundo quase secreto, e abrir um pouco mais a mente sobre os problemas humanos. Isso sem contar o final. Fazia tempo que não me emocionava tanto no final de um livro.

Autor: Tabitha Suzuma
http://www.tabithasuzuma.com/
Livro:  Proibido (Forbidden)
Editora: Valentina (Simon & Schuster)
http://www.editoravalentina.com.br/
http://books.simonandschuster.com/
Ano: 2014 (2012)
Páginas: 304
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