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Livros para Colorir e os Ranks

Porque a presença dos livros para colorir nos índices de mais vendido incomoda tanto o setor literário?
Livros que já figuraram no TOP10 do publishnews.
Não é novidade que o brasileiro compra muito pouco livro comparado ao mercado internacional e que os livros não fazem parte do cotidiano da população, não ganha discussões em encontros de amigos ou no jantar em família e nem mesmo merece uma olhada melhor nas prateleiras das livrarias.

Mas se o consumidor brasileiro não debate sobre livros, o mesmo não ocorre na mídia especializada. Cada pequeno grão de areia se transforma em maremoto no mercado editorial nacional, com editores, profissionais do livro, mídia e blogsfera realizando verdadeiras guerras digitais sobre assuntos que 90% da população provavelmente nem sabe que existe. E a polêmica da vez são os livros de colorir para adultos e sua inclusão em ranks de mais vendidos.

Os argumentos dos críticos são validos, afinal podemos chamar de livro algo que não tem texto? Essa é uma dúvida que muitas pessoas têm e posso afirmar que, por definição, livros de colorir são livros sim! Segundo a definição mais comum encontrada em dicionários, livro é: “1. Conjunto de folhas impressas e reunidas em volume encadernado ou brochado. ” Isso deveria bastar para acalmar os ânimos e terminar o debate, afinal os ranks são de livros e não de estilo ou tipos de livros, mas vamos aprofundar um pouco observando alguns pontos.

O principal usado contra listar estes livros seria a ideia de que desestimula a compra e a divulgação de livros ‘de verdade’. Um outro argumento recorrente é de que devemos promover o aprimoramento literário do leitor, ou seja, estimular que somente livros considerados de conteúdo ‘nobre’, figurem nos ranks de mais vendidos. Não me perguntem quem define o que é bom ou ruim nesse meio, é um quebra-cabeças que ninguém conseguiu decifrar ainda.
Ambos os argumentos são fracos e não irão fazer sentido algum para qualquer um que perder alguns minutos refletindo sobre o cenário atual do mundo editorial. Os livros de colorir aumentaram em mais de 2% as vendas do varejo e isso por si só, nos mostra um fato muito interessante e óbvio. Não são leitores comprando livros para colorir e sim pessoas que não leem comprando. Ah! Mas essas pessoas não deveriam comprar livros para ler e se aprimorarem como seres humanos? Óbvio que deveriam, mas a existência dos coloridos não muda em absolutamente nada a vontade que essas pessoas têm de ler, produtos diferentes para clientes diferentes, simples assim! Quem compra um livro desses não compra um livro normal e quem compra um livro normal, pode ou não comprar um livro desses, mas dificilmente irá trocar sua leitura, que já é relaxante e deliciosa, por algumas horas de pintura!

Último TOP10 com sólida presença
dos livros de colorir (Publishnews).
Então temos um problema cultural, talvez devêssemos mesmo somente falar sobre livros de ‘conteúdo’ nos ranks e tirar esses coloridos, autoajuda e religiosos da frente das pessoas, certo? Errado! Camuflar o resultado das vendas não vai fazer com que as vendas subam nem com que as pessoas leiam mais. Esconder que O Bispo Edir Macedo vendeu sozinho mais livros do que muita editoria mediana e que o Padre Marcelo está a meses no pódio não vai fazer com que as pessoas comprem mais livros. E isso seria uma prática não somente enganosa como perigosa, pois falamos de um mercado que costuma elevar seus números para promover seus produtos, o que torna os ranks de vendas pouco confiáveis e extremamente mutáveis (o do publishnews é baseado nos dados de vendas das livrarias, não das editoras, por isso divulgamos aqui no blog). Qualquer um que está no meio literário conhece histórias de compras de posição ou de espaços nos meios de divulgação. Se já é ruim e pouco verídico agora, como será quando passarmos a ignorar gêneros que não agradam uma parcela dos interessados? Esse rank que já é pouco crível ainda teria algum valor?

Sem contar que a discussão é totalmente desprovida de propósito. Quem não lê, não dá a mínima para qual livro vendeu mais ou menos. Quem lê, tem seu estilo e seu gosto literário, não vai comprar um autoajuda só porque é número um, quando adora fantasia ou chick-lit. Apelar para a máxima do marketing que algo exposto estimula a compra não funciona nesse mercado. É como no cinema, quem não gosta de terror não assiste filme de terror a não ser que seja obrigado pela circunstância. Por que então achar que quem não lê determinado gênero vai se contentar com o que tem ao invés de entrar no submarino ou ir na livraria saraiva escolher algo que lhe agrade?

Isso é só mais um chororô de editores e barulho de uma mídia que só quer noticiar polêmica. Falar sobre o livro, divulgar obras que agradem todas as camadas não somente a ‘intelectual’ e debater como melhorar o mercado e a cultura brasileira fazendo com que as pessoas se interessem por algo tão importante como os livros ninguém fala. Acho que está mais do que na hora de periódicos fazerem perguntas pertinentes, tais como: Porque esse mercado tão promissor e com uma rede de clientes em potencial tão grande não decola? O que estamos fazendo errado no país que não lê? O que as editoras fazem a respeito além do chororô e de lamuriarem suas parcas rendas? O que faz o governo a respeito? E o que todos nós, envolvidos de alguma forma com o universo literário, podemos fazer a respeito? Não tenho respostas para essas coisas, apenas conjecturas que poderiam se tornar ideias, mas tenho certeza de uma coisa, discutir preço-fixo, ‘pseudoliteratura’, a nova moda ‘livros de colorir’ ou mentir sobre as vendas, não vai mudar esse cenário patético que vive o setor literário e a cultura de nosso país. 

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