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Razões para Amar a Bienal do Livro

O calendário nacional está cheio de novos eventos literários, mas o mais tradicional deles ainda é o mais apaixonante.

Por: Danilo Venticinque, Época.


Não contem com o fim da Bienal. Desde a criação da Festa Literária Internacional de Paraty, em 2003, e o surgimento de inúmeros eventos semelhantes em várias cidades, há quem questione o futuro da Bienal do Livro de São Paulo. Alguns dizem que o modelo está esgotado. Ao contrário da Flip e de festas semelhantes, a Bienal está longe de ser um evento glamouroso. Grandes estrelas da literatura internacional costumam preferir o charme de cidades históricas a enfrentar os tumultuados corredores do Pavilhão de Exposições do Anhembi. Debates entre grandes pensadores dão lugar a encontros com autores best-sellers. Em vez de intelectuais na plateia, há multidões de crianças e adolescentes. Apesar disso tudo – ou exatamente por isso –, a Bienal sempre foi meu evento literário favorito.

Não estou sozinho. Pela estimativa dos organizadores, mais de 700 mil pessoas devem participar da próxima edição, entre os dias 22 e 31 de agosto. Na programação, há atrações para todo tipo de leitor: do best-seller galês Ken Follett, autor do monumental romance histórico Os pilares da Terra, à americana Cassandra Clare, estrela da literatura juvenil. Os autores nacionais também marcarão presença. Ruy Castro falará sobre autoficção. Patrícia Melo e Cristóvão Tezza discutirão o papel do escritor brasileiro. Pedro Bandeira, um dos autores mais queridos do público infantojuvenil, estará lá para lançar seu novo livro. Na ala jovem, Eduardo Spohr, Affonso Solano, Carolina Munhóz e Raphael Draccon representarão a fantasia. O suspense ficará por conta de Raphael Montes. Bruna Vieira e Paula Pimenta devem empolgar adolescentes numa mesa apropriadamente intitulada "papo de garotas".

Se você já foi a qualquer edição da Bienal, sabe o que esperar: filas de leitores esperando para conversar com seus ídolos, leitores amontoados nos estandes à procura de bons descontos e jovens carregando sacolas cheias de livros. Para quem acredita no futuro da leitura no país, não dá para não sorrir diante dessas cenas. Também é difícil não comparar o Anhembi com as ruas de Paraty durante a Flip, em que era impossível caminhar sem tropeçar num autor nacional ou internacional – mas podia-se passar o dia inteiro sem ver alguém com uma sacola de livros recém-comprados. A Flip é uma festa de autores. A Bienal, uma festa do leitor. Ambas têm importância. O mercado cultural brasileiro perderia muito sem uma delas.

Por mais charmosos que sejam os novos eventos literários, nenhum é tão bem-sucedido quanto a Bienal no desafio de atrair o público jovem. Desde a primeira edição, em 1970, várias gerações de leitores descobriram a leitura graças a ela. Não há leitor na cidade que não se lembre de sua primeira Bienal. Eu, pelo menos, não me esqueço da minha. Foi em 1994, na última edição da feira no Ibirapuera. Lembro de ter me perdido várias vezes pelos corredores, em busca de gibis da Turma da Mônica. Voltei à Bienal em 1996, no Expo Center Norte, com metas um pouco mais ambiciosas. Perambulei um bocado até encontrar o estande da Ediouro, que vendia com desconto obras de Júlio Verne e aventuras de Sherlock Holmes. Também comprei uma Ilíada, incompreensível para os meus 11 anos de idade, que só li um bom tempo depois. Novato de Bienal, não levei nenhuma sacola. Tive de carregar minhas compras debaixo do braço. Mesmo assim, passeei pelos corredores por horas. Só fui embora porque meu pai insistiu.

Neste ano, voltarei ao Anhembi como jornalista, para fazer algumas entrevistas e mediar um debate no Congresso Internacional do Livro Digital, nesta sexta-feira (22). Não deixarei de levar minha sacola e abastecer minha estante com novas compras, como fiz há 20 anos e espero fazer nas próximas edições. Algumas paixões são para sempre. A leitura é uma delas. A Bienal também.

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