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Resenha (49) - Dragões de Éter - Caçadores de Bruxas


Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas


Sinopse:
Nova Ether é um mundo protegido por poderosos avatares em forma de fadas-amazonas. Um dia, porém, cansadas das falhas dos seres racionais, algumas delas se voltam contra as antigas raças. E assim nasce a Era Antiga. Essa influência e esse temor sobre a humanidade só têm fim quando Primo Branford, o filho de um moleiro, reúne o que são hoje os heróis mais conhecidos do mundo e lidera a histórica e violenta Caçada de Bruxas. Primo Branford é hoje o Rei de Arzallum, e por 20 anos saboreia, satisfeito, a Paz. Nos últimos anos, entretanto, coisas estranhas começam a acontecer... Uma menina vê a própria avó ser devorada por um lobo marcado com magia negra. Dois irmãos comem estilhaços de vidro como se fossem passas silvestres e bebem água barrenta como se fosse suco, envolvidos pela magia escura de uma antiga bruxa canibal. O navio do mercenário mais sanguinário do mundo, o mesmo que acreditavam já estar morto e esquecido, retorna dos mares com um obscuro e ainda pior sucessor. E duas sociedades criminosas entram em guerra, dando início a uma intriga que irá mexer em profundos e tristes mistérios da família real. E mudará o mundo.


Meu primeiro contato com o trabalho de Raphael Draccon foi com o livro Fios de Prata e foi o suficiente para me interessar. Apesar de não considerar um livro algo fora do normal, achei bom o suficiente para finalmente dar uma chance aquela trilogia de nome vistoso e lindas capas que viviam em promoção no submarino tentando o meu auto-controle para não comprar mais livros e vou admitir para vocês, fiquei com orgulho de ver uma obra tão boa escrita em minha linha materna, com os trejeitos que conheço, as figuras de linguagem que conheço e o jeitinho artístico brasileiro que está quase extinto. Paulo Coelho, concordo contigo, Raphael Draccon deveria estar na Alemanha naquele ano, ao menos pelo excelente trabalho em Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas, afinal não li a trilogia toda e ele ainda pode cair no meu conceito, apesar que acho difícil isso acontecer.

O livro é, tecnicamente, uma releitura de diversos contos de fadas famosos, como chapeuzinho vermelho, João e Maria, Branca de Neve (chega de spoiler! A graça é você descobrir as adaptações por si só). Mas a história vai muito além disso. Com maestria e excesso de talento, o autor entra em uma narrativa onde incorpora um bardo narrando os fatos que ocorrem no mundo de Nova Éther, onde todos os seres fantásticos imaginados até hoje coexistem e vivem graças a vontade dos semi-deuses. Pode parecer um enredo normal de fantasia e você está certo em pensar assim. Mas o que faz a diferença aqui foi  a criatividade do autor ao adaptar o qu já foi feito naquilo que ele estava criando, mesclando gêneros e quebrando paradigmas com uma escrita envolvente e impossível de largar. Dragões de Éter é, como o próprio Draccon definiu, uma história onde em alguns momentos ‘tem a seriedade sóbria de um Senhor dos Anéis; em outros, a leveza sombria de um Caverna dos Dragões; em outros, a poesia de um Final Fantasy; em outros, a metalinguagem de um A História Sem Fim. Nova Éther é diferente. E ela é o que é. E talvez por isso tenha dado tão certo.’

A história começa contando o ataque de um lobo a uma senhora e sua netinha que havia acabado de chegar pra uma visita. Logo depois pula para um casal de irmãos que são atraídos a uma casa feita de doces e têm de lutar pra sobreviver e escapar com vida. Tudo isso alguns anos após a grande caçada ter inicio, evento do qual milhares de bruxas, negras ou brancas, foram exterminadas pelos soldados do reino liderados por um pebleu que cansou de tanta maldade.

Desde então, Arzallum vive um momento de paz inigualável onde todo o reino é feliz e todos os cidadãos estão contentes, afinal a desigualdade é quase inexistente quando comparada a outros reinos mundo afora.

Mas esse cenário muda e todo o reino é mergulhado no caos quando um grupo de piratas ataca a capital em conjunto com um grupo organizado de criminosos que viviam no submundo. Sem saber o porque dos ataques nem como se defender, o Rei começa a perder o controle da situação, ainda mais agora que seus dois filhos não estavam presentes e poderiam nem mesmo retornar com vida.

Enquanto o Rei bate cabeça tentando encontrar uma solução que nunca vem, a situação só piora com os piratas tomando o controle da cidade pouco a pouco. Mas o que parecia somente um ataque em busca de lucros, era na verdade, um complô para liberar algo muito pior do que bandidos sanguinários, algo que faria o reino todo tremer só de imaginar.


O que mais gostei no livro foi a forma que o autor encontrou para contar a história. Ao se colocar no lugar de um bardo, ele resgatou um estilo meio esquecido ultimamente, mas que já fez muito sucesso em vários Best-sellers do passado.  A narrativa flui de forma coerente e empolgante enquanto o autor interage de forma inteligente com o leitor, transportando muitos para o mundo da imaginação que ficou no passado de nossa infância, mas que adoramos perceber ainda acessível.

Senti falta de alguns personagens. Acho que foi isso que menos gostei. Como é uma releitura, fiquei esperando outros ‘famosos’ aparecerem por ali. Além disso não gostei da participação do senhor que os faz viajar no ‘espaço tempo’. Mas necessariamente acho que ficou forçada a presença dele e principalmente da ‘espécie’ dele(mais detalhes leia o livro), apesar de saber que ele tem todo direito de estar lá, afinal é um mundo etéreo.

Raphael Draccon


Trechinhos:

“E então as bruxas desafiaram as fadas. E os homens desafiaram as bruxas. Foi assim que nasceram as caçadas. E foi assim que nasceram os caçadores.”

“...poetas costumam chamar os países ou regiões de plaga. Por esse ponto de vista, podemos afirmar que Nova Ether é um mundo formado exatamente por plagas etéreas. E digo isso porque nesse típico mundo você não vai encontrar as coisas da maneira tão palpável quanto costuma. Tudo em Nova Ether parece concreto e maciço e pode ser tocado e sentido, mas pode ser modificado e incorporar o incrível a qualquer momento.”

“O Assombro de poder ter condenado muitas vidas inocentes voltou a lhe atormentar a mente. Mas pior do que isso era a tormenta a que ele próprio se submetia. Em seu entendimento, havia falhado, fora vencido pela ignorância e errara, dominado pelo poder de poder. Havia chegado onde estava por sua competência m caçar bruxas e agora sofria pela tormenta de descobrir que o homem tem bruxas dentro de si, muito mais difíceis de serem caçadas, pois não se pode ordenar que as matem por ignorância.”

 “Um sonhador não é capaz apenas de dar vida a novos mundos. Ele é capaz de transformar o mundo em que vive em um mundo melhor. E próximo do que ele sonha.”


Conclusão:
Raphael Draccon escreveu uma obra prima. Não sei ainda se a qualidade da continuação de Dragões de Éter será do mesmo calibre, mas somente por esse livro o autor já merece todas as honras por ter encontrado o equilíbrio entre o fantástico, a fábula, o medieval e o moderno de forma a quase criar um novo gênero. E tudo isso com um toque brasileiro que ao contrário do que possam dizer, não atrapalha, só torna tudo um pouco mais saboroso.


   
Autor: Raphael Draccon
Livro: Dragões de Éter - Caçadores de Bruxas
Editora: Leya
Ano: 2010
Páginas: 440


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